Da gratidão

belem1Al Berto — recado

ouve-me
que o dia te seja limpo e
a cada esquina de luz possas recolher
alimento suficiente para a tua morte
vai até onde ninguém te possa falar
ou reconhecer – vai por esse campo
de crateras extintas – vai por essa porta
de água tão vasta quanto a noite
deixa a árvore das cassiopeias cobrir-te
e as loucas aveias que o ácido enferrujou
erguerem-se na vertigem do voo – deixa
que o outono traga os pássaros e as abelhas
para pernoitarem na doçura
do teu breve coração – ouve-me
que o dia te seja limpo
e para lá da pele constrói o arco de sal
a morada eterna – o mar por onde fugirá
o etéreo visitante desta noite
não esqueças o navio carregado de lumes
de desejos em poeira (…)

in Horto de incêndio, Lisboa: Assírio & Alvim, 1997

Recordo-me perfeitamente  de tudo, tudo o que a minha irmã me disse no dia em que me enviou aquela frase acompanhada de uma fotografia, que todos os dias ainda ecoa na minha cabeça, se algum dia acordo e me ponho a duvidar se há coisas que realmente valem a pena o nosso esforço, a nossa dedicação.

Valem, sim. Tudo.

Procurem a vossa força.

«Que o dia te seja limpo»

Todos os dias.

Obrigada, Sandra ❤

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