Por nunca estarmos presentes

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Existe a adrenalina.

E existe o nó no estômago.

De todas as pessoas que se cruzam na nossa vida e de tantos acontecimentos por que passamos, os mais memoráveis – pessoas e acontecimentos – regem-se quase sempre por uma súbita percepção destes dois picos de sensações contraditórios ou, tantas vezes ilusórios do que realmente está a suceder em nosso redor.

As histórias que mais gostamos de partilhar numa mesa redonda com amigos são aquelas em que num momento de adrenalina brutal, conseguimos sair da situação reforçados ou com uma lição de vida para contar.

Já quando nos encontramos mais fragilizados, são os momentos em que nos aperta o estômago que colocamos em cima dessa mesma mesa os nossos valores e certezas, perante algo que nos quebrou os alicerces de forma profunda.

O que é que nos une então a todos nos momentos de descarga hormonal neurotransmissora das supra-renais, ou nos profundos momentos de reflexão após um qualquer desgosto, ou desvinculo com algo que tínhamos como garantido no passado?

O facto de em ambos os casos nos sentirmos vivos além do que normalmente vivemos no dia a dia.

As descargas de adrenalina levam a que esses momentos sejam associados na nossa memória a situações, pessoas e momentos que nos obrigaram a reagir de forma orgânica, emocional e mental superior ao esperado numa acção contínua em linha recta do quotidiano, sem qualquer estímulo adicional aparente.

Quem nunca sentiu a velha sensação de murro no estômago ao perder um amigo, ao discutir com um colega no emprego ou ao assistir ao clube preferido perder a final da liga dos campeões?

Agora imagina-te sozinho, perante o desconhecido, perante um penhasco e alguém atrás de ti te pede para saltar?

Que a tua vida depende desse salto no escuro.

«Fecha os olhos e salta!»

Numa situação normal, a primeira reacção é recuar e negarmo-nos peremptoriamente a mover um milímetro que seja em frente, gritamos, saímos, recusamos que alguém nos proponha uma coisa tão absurda, é claro que a nossa vida não depende nada de saltar coisa nenhuma!

Mas e se dependesse? E se tivesses de saltar para salvar alguém? E se estivesses mesmo presente em cada instante da tua vida que te pedem que saltes, ok, um salto mais pequenino, era só estenderes a mão àquela pessoa, não era preciso caíres do penhasco abaixo.

Quem sabe, podias até apanhá-la em pleno voo.

E se a adrenalina e o nó no estômago te dissessem que estás vivo todos os dias, e que podes usá-los para de forma decisiva fazeres alguma coisa realmente importante para ti e para os teus?

E se ao saltares, olhares para baixo no momento do voo e perceberes que existe terra firme onde vais cair seguro e, que no momento em que levantaste os pés do chão, despoletaste uma série de sensações que te abrem caminhos que nunca percorreste?

Talvez comeces a associar a adrenalina e o nó no estômago ao momento em que crias, partilhas, confias e fazes, encontrando momentos realmente únicos.

Deixavas assim de deixar na mão de terceiros ou de elementos exteriores a tua adrenalina e o teu nó no estômago. Serias tu a comandá-los e a criá-los.

E se por nunca estarmos presentes ao menos encontrássemos mais formas de chegar a quem nos pede que saltemos, estaríamos mais por inteiro a quem todos os dias arrisca o salto, só porque nós lho pedimos.

Esses, sim. São os saltos memoráveis e eternos.

Os que damos porque queremos, para chegar aos outros.

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