Os donos da verdade

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Muitas vezes nós só deveríamos concordar em discordar.

Sabemos bem o quanto uma palavra dita de determinada forma pode ser interpretada de dezenas de maneiras diferentes, dependendo de quem a ouve.

Quantos de nós não passaram já pela experiência de dizerem algo que, de acordo com os nossos valores, é completamente honesto e simples, mas que ao chegar ao nosso interlocutor, tem um efeito quase demolidor que nunca conseguiríamos prever?

O principal sempre é termos bem a noção do que dizemos e a quem, de que forma. Depois, as pessoas reagem de acordo com as experiências que viveram. E não nos cabe a nós julgar se essas experiências são certas ou erradas. Apenas entender que se para aquela pessoa, aquela palavra, discurso ou atitude leva a determinado reflexo comportamental, então se queremos respeitar e até mesmo preservar a nossa amizade e proximidade com essa pessoa, deixar de usar esse termo, tema ou discurso com ela.

Usar outros. Afinal, a língua portuguesa é rica e poética suficiente para que nos consigamos expressar sem ferir a susceptibilidade de ninguém.

É uma questão de respeito e até de compreensão.

Quando numa conversa entre amigos, o debate gira em torno de algo em que se discorda, porque todos somos diferentes e temos o direito a opinar de acordo com aquilo em que acreditamos, não será por isso que deixaremos de fazer passar a nossa opinião. O principal é não antagonizar os outros, senão aí estaremos a entrar na contradição e no absurdo de achar que a nossa verdade é mais verdadeira do que a do outro. Como, se o outro tem tanta razão quanto eu, porque para ele e de acordo com os seus valores, ele é que está certo?

Depois, existe toda uma outra dimensão anti-humana, que devido ao estilo de vida actual, cada vez mais nos leva a esconder atrás de ecrãs, dispositivos que nos impedem de estar perante o outro de forma verdadeira e honesta. A palavra escrita, o email trocado ou até mesmo a distância que percorre as duas pessoas leva a que as interpretações não sejam as melhores da mensagem que se envia. E, claro, nada como olhar nos olhos e dizer o que realmente precisamos para que o outro nos perceba.

Se nos vai perceber ou não, tudo depende da sua receptividade também, mas muito mais da forma como nos expressamos e respeitamos o espaço dele.

Se nos diz que algo o incomoda, porque haveremos de rejeitar isso apenas porque para nós nos parece absurdo? Se para ele assim é, é isso que o faz diferente de mim, logo, só posso sair mais enriquecido dessa troca de ideias.

Mesmo que os nossos valores sejam diferentes. Nós com os nossos e eles com os deles. Quando os partilhamos, então a amizade é duradoura e nada nem ninguém a pode quebrar. Se os valores entre nós forem realmente muito antagónicos, só temos de respeitar isso e apenas, com tranquilidade, manter uma proximidade cordial.

E quem é que nos disse que um debate é para alguém sair vencedor?

O verdadeiro objectivo de uma discussão (entenda-se discutir positivamente e não com a conotação negativa que por vezes lhes damos hoje em dia) é encontrar ideias diferentes das nossas, que nos possam enriquecer e tirar-nos os antolhos que nos toldam várias direcções para um mesmo caminho.

Senão, seria um monólogo, e não um diálogo.

Os adeptos do monólogo, acabam quase sempre a falar sozinhos.

Nas palavras de José Saramago, não há nada pior do que a tentativa de «colonização do outro».

Então é saudável discordarmos de forma clara e limpa.

O que não adianta muito nem nos traz crescimento interior é antagonizar e rejeitar os outros só porque nos achamos os donos da verdade.

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