Conviver com os opostos

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É só recuar uns anos (afinal não foi assim há tanto tempo, certo? 😉 ) e de certeza que encontramos lá na nossa adolescência o desejo de pertencermos a algum grupo. De ser aceite. De não ser o estranho ou o freak, ou aquele que só se podia destacar sendo, dentre os iguais, o melhor entre eles.

Ou mesmo sem o desejo, a verdade é que, sem querermos, já estávamos lá dentro.

Até podia ser injusto, ou erradamente taxado.

Éramos logo inseridos no rótulo que víamos ser aquele que as pessoas encontravam em nós.

Nessa etapa da nossa vida, pertencer era tudo. Estar fora muitas vezes era a rebeldia daqueles que olhávamos com desconfiança, mas lá no fundo, com uma certa admiração secreta. Mas lá está: esses também pertenciam a um grupo – o dos rebeldes.

Conforme vamos moldando o nosso carácter, a nossa visão do mundo, a nossa presença real e exclusivamente nossa, acabamos por desempenhar vários papéis de acordo com tudo aquilo que fazemos ou representamos nos lugares e com as pessoas com quem convivemos.

Esses papéis acabam por ser aquilo que a sociedade espera de nós. Mas fomos nós que os construímos à altura dessa sociedade.

Por exemplo: temos um professor, pai de família, adepto do Belenenses, que ao fim-de-semana não perde o padel no Restelo com os amigos e tem péssimo perder!

A quantidade de papéis e grupos gregários a que pertence só depende dele e da sua capacidade de acorrer e manter todos eles.

A sua vida corre estável e sem sobressaltos. Numa linha contínua, sem grandes estímulos, a não ser, claro, quando o Belenenses acaba por descer de divisão, ou a lista de colocações dos professores pelo país demora a sair, uma vez que apesar dos 20 anos de serviço, ainda não pertence ao quadro de zona pedagógica.

O que aconteceria se este professor começasse a conviver com os opostos?

A sair da sua zona de conforto? A desafiar a sua capacidade de aceitação, crescimento ou evolução em áreas onde nunca antes se moveu?

Porque uma coisa é fazê-lo quando se é adolescente e se tem todo o tempo do mundo e energia, outra bem diferente é quando existe uma família, uma carreira, uma vida criada à volta dos papéis que esperam de nós.

Mas e se na realidade ele sempre tivesse acalentado a vontade de escrever, ou de aprender danças de salão, ou até mesmo de tentar a sua sorte e largar a via do ensino, que tantas dores de cabeça lhe dá e apostar no seu sonho de sempre: ter um bar na praia e passar os Verões a trabalhar e os Invernos a escrever?

Existe um momento na nossa vida em que todos somos confrontados com essas decisões.

Conviver com os opostos é uma das melhores formas de crescermos, de ouvirmos vozes diferentes, de aprendermos além do nosso círculo, de nos confrontarmos com algo que é o outro lado de nós mesmos!

É aprender duas vezes: a primeira porque temos de processar tudo o que a novidade nos dá e a segunda porque esse processamento vai gerar uma série de questões sobre nós e sobre o que queremos que aconteça nos próximos tempos.

Frequentar lugares que não são os nossos habituais, fazer amizades novas, aprender algo que nos desafie verdadeiramente. Viajar para um sítio remoto sozinho.

Alugar uma casa num bairro completamente diferente àquele onde sempre vivemos.

Os horizontes expandem-se diante dos nossos olhos.

Saímos da nossa redoma e do nosso círculo dourado de conforto.

As conversas animam-se e o coração bate mais forte.

Por isso quando os meus amigos me perguntam o que é que eu ando a fazer assiduamente no FightClub, já sabem porque respondo sempre: «Foi a coisa mais oposta ao que sou que ali encontrei». 🙂

E o que isso me tem feito crescer, nem eu própria imaginava.

Como não imaginava que o que eu achava ser o meu maior oposto, afinal, é tão igual a mim que me revejo nele todas as sextas-feiras 😉

Fotografia: Horizonte Expandido, João Teixeira

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