A eterna insatisfação

carla

Quando inicias um projecto, quando é que achas que está no ponto?

Quando começas uma viagem, quando sentes que é altura de regressar?

Quando conheces alguém, quando é que sentes que aquele ser ali diante de ti, pouco ou nada vai mudar na sua essência, e que deves parar de tentar convencê-lo seja do que for?

Quando a ordem do dia é cada vez mais e mais, onde é que fica a tua capacidade de decisão de dar um basta? De por um ponto final numa história?

A realidade é que a eterna insatisfação do ser humano o levou a ser a espécie dominante que é hoje. Isso e a capacidade de adaptação à mudança.

Queria fogo, a roda, alimentos, abrigo, conforto, horizontes, voar, expandir, até a Lua conquistou. E prepara-se para mais. Afinal, é o sonho da conquista do desconhecido que dá alento à raça humana, ou não?

Senão reparem: temos sempre de dar um nome a tudo aquilo que desconhecemos. Inicialmente por medo. Depois por desconfiança. Depois até por desafio. Até que encontramos a ideia que resume aquilo que vemos diante de nós. Até ter um nome, é nada. Depois de o ter é tudo. Aquilo que é e o que nós não somos.

Depois de ter um nome, temos de o conquistar.

Lembram-se de como era a vossa vida antes do vosso namorado/a? Pois é! Mas viviam 🙂

Seja um país, uma religião, uma filosofia, um pessoa, um objecto.

O desejo que nasce da insatisfação que nos leva a querer quase sempre o que não temos.

O Mick Jagger que o diga! 🙂

Esse desejo leva à superação, à evolução, e temos mesmo de lutar por aquilo que queremos, mas deixar a intenção e a luta apenas à mercê desse desejo, é reduzir o ter só por ter ao mais básico das necessidades humanas.

Queremos um quadro, porque é bonito, porque nos dá uma sensação de plenitude em casa olhar para ele, ou apenas porque havia uma parede branca em casa e precisamos de algo para lá pendurar, que preencha esse vazio?

O desejo, ele pode ter várias formas e várias intenções.

Dependendo de quem o vê e sente.

O que não pode nunca é reduzir a vontade de ter ao mero refluxo da insatisfação estéril do preenchimento de um vazio latente que não se preenche com o desejo, mas apenas na libertação desse desejo à partida.

Senão vejamos: nos bens materiais é bem mais fácil percebermos onde se preenche o vazio comprando constantemente coisas que não precisamos apenas pelo conforto de ter, e não de lhes dar uso propriamente. Rapidamente nos cansamos e passamos para o seguinte. Quem nunca passou por isso que atire a primeira pedra. 🙂

Mas e pessoas? E sentimentos?

A nossa insatisfação connosco vai revelar sempre uma insatisfação geral com os outros, porque na realidade não são os outros que não nos preenchem. Somos nós mesmos que não nos bastamos por falta de conhecimento, de olhar para dentro.

Atenção que ninguém vive sozinho o tempo todo.

Ninguém deve viver isolado sem contacto humano.

Muitos já o experimentaram e a solidão levou ao alheamento total da realidade.

Mas colocarmos as nossas constantes inseguranças, indecisões e projecções nos outros, leva a nunca estarmos satisfeitos com nada e quem nunca sentiu na pele e na carne a sensação inigualável de acabar um projecto, cair na cama ao final do dia, voltar para casa com as compras feitas em conta, peso e medida, de ter acabado de beijar alguém até ao último fôlego e deixá-lo livre no seu ser: sem querer implicar, dominar, controlar, mudar, fazer tudo da sua maneira, sempre?

Como dizia o poeta: por vezes, não  devemos correr atrás das borboletas; devemos sim é cuidar do jardim.

Satisfazer é bom. Insatisfação crónica, nem por isso.

Fotografia: Inês Henriques 

Anúncios

Deixe uma Resposta

Preencha os seus detalhes abaixo ou clique num ícone para iniciar sessão:

Logótipo da WordPress.com

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão / Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão / Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão / Alterar )

Google+ photo

Está a comentar usando a sua conta Google+ Terminar Sessão / Alterar )

Connecting to %s