Confia

believe

6h30 da manhã.

O corpo ainda mal despertou e o sol espreguiça-se adormecido algures num vale de edifícios que demoram em acordar.

Pego no carro na direcção do centro da cidade, para dar mais uma aula personalizada a quem, como eu, madruga.

Deslizo túnel da Cril adentro.

A custo lá me lembro de acender os faróis do carro e, de imediato, uma carrinha bem à minha frente, daquelas de transporte de mercadorias, com um autocolante gigante, fluorescente com a inscrição mesmo à altura dos meus olhos, gritava:

«Feliz É O Homem Que Confia Em Deus»

«Feliz é o homem  que confia em…», penso…

«Feliz é o Homem que Confia! Ponto final!

Em Deus, no Diabo, no Benfica campeão ou na Cotação da Bolsa!»

Existirá algo mais desafiante hoje em dia do que confiar? Verdadeiramente?

Confiar de que um qualquer alinhamento dos astros, das vontades, dos discursos, dos direitos, dos deveres, do que queremos e do que ansiamos, daquilo que estamos dispostos a perder ou a ganhar, das nossas expectativas, sempre elas, em tudo, tudo isso se alinhe um dia e nos traga realmente a certeza de que tudo irá correr bem?

Confiar é entregar de peito aberto, e quem é que hoje em dia está disposto a abrir o peito às balas?

Muito poucos. Na realidade, quase ninguém.

Demasiada exposição, pouca verdade.

Demasiado barulho, poucos silêncios.

Dispersão. Rotina. Cansaço. Obrigações.

Sabes que se te entregares, vais ficar visível e exposto para que te possam usar como arma de arremesso, assim te predisponhas a isso.

Mas e se conseguíssemos inverter o processo?

E se confiássemos mais na nossa intuição e naquilo que ela nos revela?

E se confiássemos mais na nossa certeza de que não importa se o mundo confia em nós, mas que seremos nós sempre a confiar no mundo e na entrega que colocamos nele diariamente?

Se confiássemos, e soubéssemos que, por cada pessoa capaz de usar a nossa vulnerabilidade a seu favor, existem pelo menos duas que lhe pegam ao colo e a levam para casa, para cuidar?

Sigo ao volante com a certeza de que o túnel acaba logo ali.

A carrinha sai numa bifurcação, abrindo-me a estrada em frente.

15 segundos e saio do túnel quase às cegas.

O sol começa a crescer no horizonte.

Avanço pela cidade deserta, acompanha-me o som no rádio em que confio todos os dias. Há melodias que resistem a toda a desconfiança do mundo.

Chego ao destino, estaciono maior e mais firme que nunca.

Saio do carro, a minha aluna chama-me a rir!

O meu nome na voz dela é como chegar a casa.

Abro os braços e lá dentro, o peito grita:

«Confia».

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