Ponto final

yogalisboa

Hoje podia ter sido um dia igual a todos os outros.

Acordei de madrugada como de costume, ultimamente.

Sonolenta, vou despertando com o banho e o perfume das torradas; a música do café a pingar na chávena, a mesa do pequeno-almoço agitada no frenesim da máquina expresso que me anuncia o chegar de mais um dia.

A Leia, que é preciso levar a passear e que, pacientemente me espera. Como sempre.

Por fim, sento-me, bebo o café e penso naquela frase que há dias não me sai da cabeça.

«Detesto pontos finais».

Um amigo deixou-me essa frase nas mãos enquanto conversávamos sobre a vida. As pessoas.

Essa frase que há dias que me anda às voltas na cabeça. Sou obsessiva com as palavras.

Gosto de as revirar do avesso, de lhes ler as entranhas e saber as suas teses e antíteses. Principalmente quando sei por onde as negar. Ver o seu outro lado.

Numa intuição, abro o browser e deparo-me com um texto antigo do Tolentino Mendonça.

«fiquei a pensar (…) no que é essa necessidade de parar para a qual a vida, num momento ou noutro, nos encaminha; nos fins que nos temos de impor se quisermos crescer, mesmo quando os ventos correm de feição; na urgência fundamental que representa escutar-se a si mesmo, perfurando camadas de distracção e automatismo.

diria isto: por vezes o que nos aproxima da autenticidade é o continuar, por vezes é parar.

e só o saberemos no exercício paciente e inacabado da escuta. mas esta audição a nós próprios não se faz sem coragem e sem esvaziamento.
não podemos estar à espera de condições ideais. eu acredito naquilo que o músico John Cage deixou escrito: em nenhuma parte do espaço ou do tempo existe isso a que, de forma idealizada, nós chamamos silêncio. à nossa volta tudo é som, por muito que tentemos encontrar um silêncio. e do mesmo modo se expressou Kafka falando da sua trincheira, a literatura: «nunca conseguimos estar suficientemente sozinhos quando escrevemos, até mesmo a noite nunca é noite o suficiente». aquilo a que chamamos silêncio só se torna real e efetivo através de um processo de despojamento interior, e de nenhuma outra maneira.
os padres do deserto ensinam-no, com uma sabedoria sempre calibrada de humor. como aparece nesta história o monge Arsénio? “a certa altura, o abba Arsérnio chegou a um canavial e os juncos eram agitados pelo vento. e o velho sábio perguntou aos irmãos : que rumorejar é este?, e eles responderam: são os juncos.
o velho sábio disse-lhes: na verdade, se um homem se sentar em silêncio e ouvir a voz de um pássaro, é porque não tinha mesmo silêncio no seu coração. quanto mais não será assim convosco, que ouvis os sons destes juncos?”

o silêncio não é apenas exterior. é preciso ter «silêncio no seu coração». mas esse silêncio pede-nos, em cada dia, muita turbulência e empenho. diziam ainda os padres do deserto: aquele que se senta em solidão e está silencioso escapou a três guerras – ouvir, falar, ver. terá, contudo, de travar continuamente uma batalha contra uma coisa: o seu próprio coração.

faltam-nos hoje mestres de humanidade. faltam cartógrafos do coração humano, dos seus infindos e árduos caminhos que, por fim, se revelam extraordinariamente simples. falta-nos uma nova gramática que concilie os termos que a nossa cultura tem por inconciliáveis: razão e sensibilidade, eficácia e afectos, individualidade e compromisso social, gestão e compaixão(…)»

josé tolentino mendonça, revista expresso, 19/jan’13

 

Reclino-me na cadeira e sossego.

Quantas vírgulas serão necessárias para chegarmos eventualmente ao tão necessário e virtuoso ponto final no momento certo?

Quantas turbulências, ruídos, batalhas e resistências até ao silêncio apaziguador dos dias em que respiramos melhor, acordamos melhor, somos melhores connosco? Com todos?

Parar é imperativo.

Dar o ponto final para o novo parágrafo, travessão.

Até Saramago, parco em pontos, o reconhecia na altura certa.

E que mestria ao terminar capítulos.

Hoje até podia ter sido um dia igual a todos os outros.

Mas não foi.

Não é.

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