Olhar, para ver

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Ver o que temos diante de nós é uma luta constante.

As horas passam e tudo à nossa volta nos obriga a deixar à superfície, a passar sem ver, a correr sem sentir o chão que pisamos. Todos os dias.

As nossas rotinas são tantas vezes o nosso alicerce.

Sem elas, a nossa mente não se treinava, o nosso corpo não se habituava e as nossas emoções estariam sempre num vaivém constante de gestão acima das nossas capacidades.

A rotina é, afinal, uma espécie de mecanismo de segurança que nos impomos a nós mesmos.

É necessária. Para que nos sintamos seguros, certeiros, eficazes nos gestos do quotidiano, que repetidamente se transformam naquilo em que somos realmente quase infalíveis.

Pegar no carro sem pensar como o fazer, abrir e fechar a porta de casa inadvertidamente, vestir, despir, a higiene diária, chegar ao trabalho, ligar o computador, dar banho aos filhos, conviver com as pessoas com quem partilhamos a vida, fazer o jantar, etc. Podíamos continuar numa lista sem fim de tarefas, gestos, palavras e até acções condicionadas de tão automatizadas que estão na nossa pele.

Então, como ampliar os nossos sentidos e a nossa vontade diante de tudo o que já fazemos, sem sequer valorizarmos, por se ter tornado tão… digamos… mecanizado?

O primeiro passo será, quem sabe, ver nessas rotinas uma forma de organizarmos o nosso tempo.

Aquilo que poderia ser um enorme esforço (acordar muito cedo diariamente) pode ser transformado numa oportunidade de mudança de hábitos (à noite temos mais necessidade de dormir cedo, logo, descansar mais, dispersar menos é bastante produtivo).

Outra forma de as encarar, pode ser manter um compromisso com elas: manter uma rotina certa durante determinado período de tempo para, num outro, estipulado por nós, deixarmos totalmente ao acaso os horários, as tarefas e deixar o imprevisto acontecer.

Por exemplo, como não considero o meu trabalho, «trabalho», mas sim, missão, para o manter organizado tenho de ter uma disciplina férrea nos horários, no descanso e no conforto, para ter a certeza de que os meus níveis de energia estão sempre capazes de responder às minhas necessidades diárias.

Quando não estou a trabalhar, ou me ausento a lazer, então os horários, as rotinas, as tarefas, deixam de ser importantes.

Para mim, estar de férias, é não ter horários.

No entanto, todos os dias mantenho, mesmo nessa rotina que adoro, uma capacidade de deslumbramento constante. Pode até ser por trabalhar em lugares diferentes, conhecer pessoas muito diferentes, estar sempre diante de desafios diferentes em que tudo conjugado, torna difícil a que uma rotina espartana se instale. Mas a verdade é que mesmo repetindo muitos gestos, lugares e até dinâmicas, consigo sempre olhar para tudo de forma diferente. Todos os dias.

E se não conseguirmos escapar das rotinas, então, porque não quebramos a rotina dentro da rotina?

De repente dou por mim a começar a aula e é o céu que já nasceu, e nos faz despertar para outro dia com mais certezas. Tudo está novo: as cores, as imagens, os sons da rua que acorda, o movimento na aula.

É a gargalhada de um aluno novo que recebo à hora de almoço e que nos aquece do frio ao sairmos da sala.

É a luz que desmaia ao chegar a casa, que me deixa uma certa lassidão no corpo a pedir descanso.

Uma conversa que me despoletou uma determinada emoção inesperada.

Uma refeição fora do habitual, com sabores invulgares.

Uma janela por onde passo todos os dias e que sempre esteve ali, mas hoje estava acesa e alguém prepara o jantar.

São os pormenores. As mudanças ínfimas no óbvio que nos fazem mesmo ver o que sempre lá esteve, mas não percebíamos.

Nas pessoas. Nos lugares. Nos recantos perdidos da repetição a que muitas vezes estamos encurralados.

Só que isso passa sempre por uma grande vontade de inovar todos os dias.

E lutar por nos mantermos deslumbrados, apaixonados pelos gestos que nos dão alento.

Olhar, para ver mesmo, a pessoa que está à nossa frente, desde sempre, e não vemos.

Saber ver por dentro os nossos alimentos, abrir a essência do que pensamos.

Nós somos o que comemos e o que mentalizamos: todos os dias.

Então, é nossa, só nossa, a luta para olhar além do óbvio e começar a ver o que realmente é essencial.

Porque, por mais novidades que tenhamos em nosso redor, o essencial será sempre «invisível aos olhos». (Exupéry)

Fotografia, da Série Satya:   Mariana A. Trancoso

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