Por favor, deixem-nos festejar!

imageÉ domingo de manhã.
Estamos todos a acordar de uma sensação de festa incrível.
Percebo que o melhor desta manhã de domingo não é o acordar com a sensação de vitória e orgulho que o nosso país está a atravessar, mas ver as pessoas que me rodeiam verdadeiramente felizes.
Tento descansar a custo.
Desde sempre que tenho a mania que dormir é uma perda de tempo, quando há tanto para viver. Durmo à pressa. Descanso apenas o que me permite voltar a vibrar sem perder tempo.
Este fim-de-semana trouxe tantas emoções ao alto que ninguém conseguiu ficar indiferente.
Na sexta feira o país reuniu-se para receber uma das figuras mais carismáticas do mundo actual.
Quer se seja católico ou não, praticante ou não, crítico das honras de Estado, dos gastos e meios humanos que isto tem, a verdade é que aquilo que o Papa Francisco representa hoje em dia é a Mudança. Quer gostemos quer não, a nossa tradição cultural é a judaico-cristã. Fomos praticamente quase todos criados nos valores que regem o bem, o amor ao próximo e na nossa capacidade de olhar além do nosso umbigo. Esses parecem-me ser os valores que temos de ver além do ouro e dos aviões privados do Vaticano. O Senhor que nos visitou na sexta-feira tem um carisma de proximidade que há muito não víamos. Essa Mudança que precisamos é também aqui que começa. Começarmos a ver os outros, que tanto rejeitamos, com outros olhos, é sinal de que se apazigua algo dentro de nós.
Deito os olhos pela tv e vejo um discurso breve de António Guterres no cargo mais prestigiante da ONU. Mudo de canal e encontro o novo Presidente Francês a tomar posse. Macron é o Obama da Europa. Jovem, inovador, inspirador, sem medo de dizer o que pensa com diplomacia e respeito pelos outros. Fecho os olhos e respiro fundo enquanto ele sorri para a esposa, 24 anos mais velha que ele. O mundo está a mudar.
Volto atrás. Volto nas minhas lembranças do dia de ontem. Sábado à tarde. Praia de Santa Cruz, em Torres Vedras.
Chego para o lançamento do meu livro a convite de uma amiga que não via há anos. Estaciono à porta do Cliff Surf Camp, onde vai decorrer o evento. Lá dentro, uma equipa dinâmica, de mangas arregaçadas, limpa o deck exterior depois de um aguaceiro que tentava pôr termo aos nossos planos de festa ao ar livre.
Dizem-me que é cedo, que vá dar um passeio à Praia do Amanhã. Sorrio por dentro.
A Praia do Amanhã parece profético, não?
Chego com passo lento à beira da falésia e respiro fundo. Ao longe um grupo de surfistas enfrenta o mar de Maio, sempre duro naquela zona do oeste. Estou completamente sozinha naquela imensidão. Ninguém me vê na falésia e sinto-me pairar naquela brisa de fim de tarde.
De súbito, um som seco mas cortante quebra aquele silêncio raro. Olho à direita da falésia e vejo aproximarem-se 3 aeronaves na minha direcção. Voavam alto, mas consegui logo perceber que se tratava da Esquadra 751 que trazia o nosso Presidente Marcelo e comitiva de Monte Real, alguns quilómetros acima de onde me encontrava.
O nosso actual Presidente é provavelmente o mais admirável, dinâmico, carismático e próximo de que me lembro. Recordo-me bem de tantas vezes ter mentalizado algo assim para o nosso país. A Mudança nos gestos, nas palavras, nas acções dos nossos representantes ao mais alto nível.
Desato a rir sozinha. Tenho um aluno e grande amigo aos comandos de uma das aeronaves e sei perfeitamente que estar ali, àquela hora e vê-los passar é qualquer coisa de intrigante.
O Universo tem linhas estranhas com que se coser. E nós temos por vezes tremendos novelos para desatar.
A noite cai após o evento. Muita gente bonita, calorosa, todos gritam o Benfica é Tetra-Campeão, o meu pai liga-me em lágrimas: »Onde andas..!!?» E tudo me corre pela pele com uma voracidade incrível.
Pego no carro já o corpo pede sono. Trago a mala vazia de livros e o coração cheio de ecos inesquecíveis. Ouve-se melhor o clamor da nossa alma numa mala vazia e leve.
Chego a casa, abraço a Leia e ouço os gritos dos vizinhos. Penso para mim mesma que os festejos na Luz fazem ecos ainda pelas minhas janelas.
Mas afinal não, tínhamos ganho a Eurovisão.
Uma amiga de Nova Iorque envia-me uma mensagem de orgulho.
O Mundo está outra vez a falar de nós.
Mais uma vez não foi a vitória em si que foi mesmo importante. Foi o contexto todo dessa vitória. Uma canção bonita, simples, acolhedora, a diferença perante todo o aparato e o barulho que costuma ser aquele tipo de eventos. Foi como se disséssemos ao Mundo: »Deixem-se de tretas! Sejam vocês!». Calámos os críticos. Épico!
Olho para trás e lembro-me bem de ouvir o Salvador cantar há um ano atrás no Hot Club, a acompanhar um trompetista meu amigo. Momento que vou para sempre recordar. Tantas coisas mudaram para melhor.
E eu só queria dormir. E lá tive de ir festejar outra vez.
A nossa vida é uma colecção muitas vezes rara de momentos mágicos. Ontem, tivémos tantos.
Festejarmos quando conseguimos algo pessoal ou colectivo é vital!
É urgente que tenhamos cada vez mais o nosso momento confetti!
Aquele em que atiramos tudo para o alto: a vida, os humores, os amores e desamores, a escassez de tempo para fazermos tudo o que queremos nestes breves segundos em que os nossos olhos piscam e a vida já nos corre sem abrandar, pelo retrovisor do carro.
Desligo a tv e ainda consigo ver de relance Macron sob uma chuva copiosa no Arco do Triunfo.
A celebrar. A Mudar quase tudo.
Apaguem-se as vozes dos críticos. Deixem as pessoas correr pelas ruas, não importa o motivo!
Celebrem tudo.
Celebrem hoje.
Celebrem sempre.
A Praia do Amanhã é Hoje. Agora.
Amanhã é uma brisa que passa depressa demais.

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